No cenário político-religioso brasileiro, onde pastores evangélicos frequentemente abraçam o conservadorismo e o poder, há cada vez mais vozes dissonantes, dentre elas, Zé Barbosa Jr., o “Pastor de Esquerda”. Em participação polêmica no podcast Nizológico, comandado por Nizo Neto, filho do lendário humorista Chico Anysio, o pastor não poupou críticas ao que considera fundamentalismo religioso e à instrumentalização da fé para fins políticos.
“Chegou a hora da igreja governar? Jesus nunca quis isso”
Zé Barbosa, que lidera a Comunidade de Jesus em Campina Grande (PB), foi incisivo ao rebater a ideia de que a igreja deve ocupar espaços de poder. “Chegou a hora da igreja governar? Como se isso fosse o projeto de Jesus. Ele sempre disse que o reino dele não é deste mundo”, afirmou, citando a teologia do domínio, que prega a ocupação de espaços políticos por evangélicos.
O pastor ainda lembrou que, durante a ditadura militar, líderes religiosos trocaram favores com o regime em troca de concessões de rádio e TV, criando uma base de influência que perdura até hoje. “Enquanto muitos trocavam favores por prefeituras, os evangélicos apostaram na comunicação. Foi uma jogada inteligente, mas perversa”, destacou.
“Malafaia provoca e depois diz que é perseguido. Ele não é perseguido, é misógino e ganancioso”
Barbosa não poupou críticas a figuras como Silas Malafaia, um dos principais nomes do neopentecostalismo brasileiro. “Malafaia provoca, bate, e quando reagem, diz que é perseguido. Ele não é perseguido por causa do Evangelho, ele é misógino, ganancioso e milionário”, disparou.
O pastor também criticou a vitimização constante de líderes evangélicos. “Eles adoram o discurso da perseguição porque é gostoso. Jesus falou ‘bem-aventurados os perseguidos’, mas não quando a perseguição é causada por mentiras”, completou, em referência às críticas que pastores como Malafaia recebem por suas declarações polêmicas.
“Bolsonaro com versículo bíblico na campanha? Isso é projeto de poder, não de fé”
Zé Barbosa foi contundente ao analisar o uso da religião na política, especialmente durante a eleição de Jair Bolsonaro. “Quando foi que um versículo bíblico virou lema de campanha no Brasil? Isso é projeto de poder, não de fé”, afirmou, lembrando que a estratégia foi eficaz em mobilizar eleitores evangélicos.
Ele ainda criticou a conexão feita por apoiadores de Bolsonaro com a figura do Messias. “O cara literalmente tem ‘Messias’ no nome. Para muitos, ele era o enviado, mas o resultado foi desastroso”, ironizou.
“A Bíblia não é manual de regras, é um livro cheio de humanidade”
O pastor defendeu uma leitura crítica e contextualizada da Bíblia, rejeitando a ideia de que o texto sagrado deve ser seguido ao pé da letra. “A Bíblia não é um manual de regras. Ela foi escrita em um contexto específico, com narrativas que refletem a humanidade da época”, explicou.
Barbosa destacou que muitas passagens bíblicas são mal interpretadas, como as que condenam a homossexualidade. “A palavra traduzida como ‘homossexual’ no original grego é um neologismo de Paulo. Não dá para usar isso como base para discriminar ninguém”, afirmou.
“Jesus era um cara que curtia festa, não um moralista de plantão”
Em uma das declarações mais polêmicas, Zé Barbosa lembrou que Jesus era frequentemente acusado de ser “comilão e beberrão”. “Ele estava em festas, transformou água em vinho. Se fosse evangélico brasileiro, teria transformado vinho em água”, brincou.
O pastor também destacou que Jesus andava com prostitutas, cobradores de impostos e outras figuras marginalizadas. “Ele não veio para os santos, veio para os pecadores. E hoje, muitos pastores fazem o contrário: excluem quem não se encaixa no padrão deles”, criticou.
“Igreja não pode dominar o corpo das pessoas. Isso é perverso”
Barbosa foi enfático também ao criticar o controle que muitas igrejas exercem sobre a vida íntima dos fiéis. “Se a igreja domina o seu corpo, ela domina tudo. Dizem com quem você pode transar, como e quando. Isso é perverso”, afirmou.
Ele ainda relacionou essa dominação ao crescimento do conservadorismo religioso. “O movimento LGBT e o feminismo são uma afronta a esse controle. Por isso, são tão atacados”, completou.
“Cristofobia no Brasil? Isso é invenção. O que existe é igrejofobia”
Questionado sobre a suposta perseguição aos cristãos no Brasil, Zé Barbosa foi categórico: “Cristofobia no Brasil é invenção. O que existe é igrejofobia, porque essas igrejas queimam o filme de Jesus. Ele é legal, mas o fã clube é insuportável”, ironizou.
O pastor ainda destacou que a maioria dos pastores no Brasil é pobre, mas que figuras como Malafaia e Edir Macedo criam uma imagem distorcida. “80% dos pastores são pobres, mas o pessoal acha que todo mundo é Malafaia”, disse.
“Jesus não é branco de olho azul. Ele era moreno, do Oriente Médio”
Zé Barbosa também criticou a representação de Jesus como um homem branco de olhos azuis. “Jesus era do Oriente Médio, moreno, de cabelo enrolado. Essa imagem de Jesus loiro é uma construção europeia”, afirmou.
Ele ainda lembrou que, quando criança, Jesus fugiu com a família para o Egito, que fica na África. “Se ele fosse branco, não passaria despercebido lá”, brincou.
“A fé não é doutrina, é experiência com o sagrado”
Por fim, o pastor defendeu uma fé mais livre e menos dogmática. “A fé não é o que a igreja ensina, é a minha experiência com o sagrado. Ninguém pode interferir nisso”, afirmou.
Barbosa ainda criticou pastores que se colocam como “porta-vozes de Deus”. “Se um pastor diz ‘Deus me falou’, pode ter certeza: Deus não falou nada. Ele está mentindo”, finalizou.
Com declarações contundentes e um humor ácido, Zé Barbosa Jr. reafirma sua posição como uma das vozes mais progressistas e críticas do cenário religioso brasileiro. Suas reflexões estão disponíveis no podcast em suas redes sociais, bem como na revista Fórum para a qual colabora.
