Pastor Hermes Fernandes, da Igreja Reina, afirma: “Após a ressurreição, Jesus se revelou primeiro a um casal gay no caminho de Emaús”

O pastor Hermes Carvalho Fernandes, da Igreja Reina, no Rio de Janeiro, reacendeu a discussão sobre a interpretação de textos bíblicos ao sugerir que os dois discípulos que encontraram Jesus no caminho de Emaús eram um casal homoafetivo. A declaração, feita em uma postagem no Instagram, desafia a interpretação tradicional da passagem bíblica e gerou debates acalorados nas redes sociais e entre líderes religiosos.

Na postagem, Hermes Fernandes questiona o “segredo silenciado pela tradição” sobre a identidade dos discípulos. Ele destaca que apenas um deles, Cléopas, é nomeado na Bíblia, e sugere que o outro discípulo era seu companheiro homoafetivo.

O pastor argumenta que a ausência de esposas, filhos ou justificativas para a presença dos dois homens na mesma casa indica uma relação mais profunda. Ele também aponta para a ambiguidade de gênero no nome “Cléopas”, que soa semelhante a “Cleópatra”, como uma possível pista para a natureza da relação.

Rompendo com a interpretação tradicional

“Que segredo silenciado pela tradição está escondido na estrada empoeirada de Emaús?” pergunta Fernandes em seu longo post. “Não se trata de parábolas ou milagres, mas de ‘quem’ Jesus escolheu para se revelar logo após a ressurreição.”

O pastor ressalta que o texto bíblico nomeia apenas um discípulo, Cleopas, enquanto o outro permanece anônimo. “Dois homens, compartilhando o mesmo teto, insistindo que o peregrino (que era Jesus) ficasse com eles”, escreve ele.

Contexto cultural como evidência

Fernandes argumenta que a cultura judaica do primeiro século não permitiria que homens sem parentesco compartilhassem uma casa sem explicação. “A ausência de esposas, filhos ou justificativas no texto é ensurdecedora”, afirma.

O pastor sugere que a omissão do nome do segundo discípulo não foi acidental, mas “um silêncio estrategicamente humano, uma mensagem criptografada de Lucas: ‘aqui jaz um segredo que o mundo não está pronto para ouvir'”.

Uma história de desafiar o cristianismo conservador

Esta não é a primeira vez que Fernandes provoca polêmica. Em setembro de 2023, ele viralizou por se opor a pastores conservadores como Silas Malafaia, Marcos Feliciano e André Valadão, conforme relatado pelo O Globo.

Como fundador da Igreja Reina, no bairro do Engenho Novo, no Rio de Janeiro, Fernandes ganhou atenção nacional por desafiar o fundamentalismo evangélico em questões como homossexualidade, legalização da maconha e aborto.

Desafiando o literalismo bíblico

“Jesus não hesitou. Ele aceitou o convite, sentou-se à mesa e partiu o pão”, escreve Fernandes. “E ali, na casa de dois homens que o mundo julgaria indignos, ele se revelou plenamente.”

O pastor questiona se estar em um relacionamento do mesmo sexo os tornaria “menos capazes de hospedar o divino? Ou precisamente mais capaz, por conhecer em primeira mão o peso da exclusão que o próprio Jesus carregava?”

A experiência pessoal molda a teologia

Fernandes compartilha uma anedota pessoal: “Anos atrás, um casal LGBTQIA+ me recebeu em sua casa em Fortaleza. O amor deles era tão generoso, tão transbordante, que me senti como um fariseu diante deles. Enquanto eu pregava sobre a graça, eles a viviam.

Essa experiência aparentemente informa sua interpretação da história de Emaús, onde ele vê Jesus escolhendo deliberadamente pessoas marginalizadas.

O relato bíblico

O Evangelho de Lucas (24:13-35) descreve dois discípulos caminhando para Emaús quando Jesus se junta a eles, embora eles não o reconheçam inicialmente. Depois de explicar-lhes as escrituras, “agiu como se estivesse indo mais longe. Mas eles insistiram com ele, dizendo: ‘Fique conosco, pois já é tarde e o dia já está adiantado.’ Então ele entrou para ficar com eles” (Lucas 24:28-29).

Insubmissão como um valor teológico

Fernandes conclui provocativamente seu post: “Emaús é um convite à insubmissão: recusar-se a engolir interpretações pasteurizadas e ousar acreditar que o fogo sagrado da inclusão queima mais forte onde a religião tenta extingui-lo”.

Sua interpretação desafia séculos de compreensão bíblica tradicional, sugerindo que “a revelação está nas margens. Sempre foi.”

Antecedentes de um evangélico progressista

Como relatou O Globo em setembro de 2023, Fernandes vem de uma família evangélica – seu pai e seu avô eram pastores. Sua mudança teológica veio depois que sua filha nasceu com déficits cognitivos e motores devido a um erro médico, que ele diz ter lhe dado “um novo olhar sobre a discriminação que as pessoas sofrem”.

Estudar psicologia moldou ainda mais sua abordagem empática. Ele é conhecido por criticar o que chama de “igrejas de paredes pretas” – congregações da moda com pastores em jeans rasgados que mantêm visões fundamentalistas por trás de sua aparência moderna.

Voz crescente em uma igreja dividida

Apesar de representar uma posição minoritária, Fernandes acredita que as vozes evangélicas progressistas estão ficando mais altas. “Mesmo que ainda sejamos uma minoria, somos uma minoria cada vez mais barulhenta”, disse ele ao O Globo.

Sua postagem no Instagram sobre os discípulos de Emaús representa seu esforço contínuo para reinterpretar os textos bíblicos através de uma lente mais inclusiva, desafiando o que ele vê como uma “ortodoxia religiosa estreita”.

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