Comunidade muçulmana no Brasil: entre 800 mil e 1,5 milhão de fiéis.

Brasil islâmico: Do nascer ao pôr do sol, 1,5 milhão de brasileiros celebram o Ramadã

O Brasil, tradicionalmente conhecido como o maior país católico do mundo, vem testemunhando um crescimento expressivo da comunidade muçulmana nas últimas décadas. Segundo a Federação das Associações Muçulmanas no Brasil (Fambras), existem entre 800 mil e 1,5 milhão de muçulmanos no país, conforme informação do Jornal da USP baseada no Censo de 2010.

Este número representa um crescimento significativo. O artigo “Rituais fúnebres no islã: notas sobre as comunidades muçulmanas no Brasil”, publicado no Scielo pela pesquisadora Gisele Fonseca Chagas da Universidade Federal Fluminense, aponta que houve um aumento de 29% no número de adeptos do islã em relação ao Censo de 2000.

Divergências nos números

Os dados oficiais do Censo apontaram a existência de 35.167 muçulmanos no Brasil. No entanto, a Fambras contesta esse número, afirmando que existiriam aproximadamente 1.482.760 muçulmanos em território nacional, vinculados a diferentes instituições.

Embora ainda representem uma minoria religiosa em um país de mais de 200 milhões de habitantes, onde cerca de 90% se identificam como cristãos (católicos ou evangélicos), o crescimento da comunidade islâmica é um fenômeno que merece atenção.

O mês sagrado se aproxima

Neste contexto de crescimento, o Ramadã, um dos pilares fundamentais da fé islâmica, está prestes a começar. O “mês abençoado”, como é conhecido entre os muçulmanos, deve iniciar na sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025, quando a lua nova for avistada após o término do mês islâmico de Shaban.

O Ramadã é considerado um dos meses mais sagrados para os muçulmanos, conforme explica o Islamic Network Group. Durante este período, os fiéis comemoram a revelação do Alcorão e jejuam de comida e bebida durante as horas de sol como forma de se aproximar de Deus.

Como funciona o jejum

“O jejum começa na alvorada, um pouco antes do nascer do sol, então ele é bem cedo, e termina somente quando o sol se põe”, explica a professora Fabíola Oliveira em vídeo produzido pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER) no X. Ela acrescenta: “E para quem vai me perguntar… Sim! Nem água a gente toma durante o jejum.”

De acordo com o Islamic Network Group, os muçulmanos jejuam do amanhecer ao pôr do sol, um período que pode durar de 11 a 16 horas, dependendo da época do ano, por 29 a 30 dias. Além de abdicar de comida e bebida, os fiéis casados também se abstêm de relações sexuais durante as horas diurnas.

Mais que abstenção alimentar

O Ramadã vai além do jejum físico. É também um momento para os muçulmanos se treinarem espiritualmente, evitando comportamentos negativos como fofocas, calúnias ou discussões. “Um tempo de olhar para si, um momento de reflexão, de intencionar coisas boas, parar e perceber o que de fato é importante na nossa vida”, define Fabíola Oliveira.

O objetivo final do jejum é ganhar maior consciência de Deus, conhecida em árabe como “taqwa”, que significa um estado de consciência constante de Deus. A partir dessa consciência, espera-se que a pessoa desenvolva disciplina, autocontrole e maior incentivo para fazer o bem.

Práticas durante o mês sagrado

Durante o Ramadã, os muçulmanos intensificam suas práticas religiosas. As famílias acordam antes do amanhecer para uma refeição leve chamada “suhur”. Ao pôr do sol, quebram o jejum com tâmaras e água, em uma refeição conhecida como “iftar”.

As mesquitas realizam jantares comunitários e orações especiais chamadas “Taraweeh”. Há também um esforço para ler o Alcorão inteiro durante o mês, e muitas mesquitas organizam campanhas de caridade, refletindo a importância da generosidade nesse período.

Quem deve jejuar

Todos os muçulmanos que atingiram a puberdade são obrigados a jejuar. No entanto, pessoas para quem o jejum seria uma dificuldade estão isentas, como explica o Islamic Network Group. Isso inclui doentes, viajantes, mulheres grávidas, amamentando ou menstruadas, além de idosos fragilizados.

As crianças, embora não sejam obrigadas a jejuar até a puberdade, muitas vezes realizam jejuns limitados ou simbólicos a partir dos sete anos, como forma de treinamento gradual e para gerar um senso de inclusão.

Celebração ao final

O Ramadã termina com uma das principais celebrações islâmicas, o Eid ul-Fitr ou “Festival da Quebra do Jejum”. Neste dia, realiza-se uma oração e sermão especiais pela manhã, seguidos de celebrações comunitárias com comidas, jogos e presentes para as crianças.

“A prática de jejuar é um dos pilares da religião e celebrada com muita alegria por estar vivo para mais um Ramadã, e receber todas as bênçãos que esse mês traz”, destaca Fabíola Oliveira.

Por que o Ramadã merece atenção no Brasil?

O Ramadã não é apenas um evento religioso, mas um fenômeno cultural e social que reflete a diversidade brasileira. Com a crescente presença muçulmana no país, entender suas práticas e tradições é essencial para construir uma sociedade mais inclusiva. Como diz Fabíola Oliveira: “Receber todas as bênçãos que esse mês traz é uma celebração da vida e da fé”.

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