“Fui chamado de comunista”: Ex-pastor presbiteriano e fundador da Rio de Paz expõe crise no protestantismo e alinhamento das igrejas com Bolsonaro

O ex-pastor presbiteriano Antônio Carlos Costa, fundador da ONG Rio de Paz, foi o convidado do programa Reconversa, exibido em 18 de fevereiro de 2025. A atração, conduzida pelo jornalista Reinaldo Azevedo e pelo empresário Walfrido Warde, discutiu temas como teologia, cristianismo, luta social e os rumos do protestantismo brasileiro. Durante a entrevista, Costa abordou o que considera a maior crise da história do movimento protestante no Brasil.

Trajetória de ativismo social

Expulso da Igreja Presbiteriana por sua atuação em defesa dos direitos humanos e pela crítica ao alinhamento político de grande parte dos evangélicos, Costa relatou sua trajetória e os desafios enfrentados. Ele explicou que começou a levar para os púlpitos temas como desigualdade social, abuso de autoridade e violência policial a partir de 2007. Com isso, passou a ser visto como um “comunista” por setores do protestantismo.

“Comecei a falar sobre direitos humanos, sobre desigualdade de oportunidade e vida, abuso de autoridade. Eu nunca havia tratado isso antes. Em 2007, comecei a levar esses temas para a igreja, e aí eu chegava atônito no domingo porque a minha semana era passada na favela, no IML, nos cemitérios da cidade, com mães chorando, com gente se agarrando”, relatou Costa.

Acusações de politização da fé

Ao assumir pautas consideradas de esquerda, foi acusado de abandonar a missão evangelística da igreja e de se vender para o campo político.

“O discurso era o seguinte: ele vai se candidatar a qualquer momento, a igreja perdeu um evangelista, perdeu um teólogo, perdeu um pregador. Ele saiu do púlpito, está na política, está vendido para a esquerda”, afirmou.

O fenômeno do bolsonarismo evangélico

A partir de 1h14min da entrevista, Costa falou sobre a adesão massiva de evangélicos ao bolsonarismo. Ele criticou a forma como líderes religiosos apoiaram incondicionalmente Jair Bolsonaro e incorporaram suas pautas ao discurso religioso.

“Eu vejo os pastores, mais de dois terços da igreja, fechando com o bolsonarismo. Bolsonaro nos púlpitos, ele aparecendo em telões, os evangélicos no meio do culto gritando ‘mito, mito, mito’. E não apenas isso, fechando com as pautas dele, um homem que, numa sessão do Congresso Nacional, declarou que o seu voto era uma homenagem ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um torturador.”

Êxodo de fiéis e crise institucional

Costa também destacou o impacto desse alinhamento político no afastamento de jovens da igreja.

“Eu falei para a igreja: meus amigos, vocês estão causando um escândalo dentro da igreja. Milhares de jovens estão abandonando a igreja porque todas fecharam com o bolsonarismo. Eu recebi mensagens de pessoas dizendo: ‘Eu não tenho mais igreja para congregar na minha cidade, todas fecharam com o bolsonarismo’.”

O ex-pastor lamentou a substituição de valores cristãos como amor ao próximo e defesa dos mais vulneráveis por uma adesão política acrítica. “Os erros cometidos pelo Lula não são postos na conta da igreja, mas os do Bolsonaro sim”, concluiu.

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